(18h e qualquer coisa da sexta-feira da Paixão)
Como estar em um buraco bastante fundo ou ser enterrado vivo. Cravar, eufórico, a unha no barro ou na pedra ou na madeira, buscando forma de retornar à existência. Após anos e anos de pedir para que se finalizasse a existência. Até depois da morte repleto e revestido de controvérsia. Porque nos momentos em que experimentava o limiar - o quase lá, o está próximo, o depois da curva - sempre também chegava à conclusão de que entre a vida é o nada sobrava um segundo de consciência no qual se conhecia tudo. Conhecimentos de Alexandria, coisas bárbaras, anteriormente postas em papéis já queimados, histórias que deixaram de ser contadas porque os conhecedores também já haviam morrido. Nesse um segundo, que talvez não passe de uma fração de, mas que é - por seu turno - suficiente: talvez nele se conclua pelos vícios anteriores e pelas razões que confundiam os sentidos e atribuíam certo tom acinzentado à memória. Lembrava: a infância era preto e branco; a primeira, a segunda e todas as outras subsequentes. Era acinzentado quando ouvia grunhidos em tom de piada a respeito de coisas para as quais não dispunha de qualquer controle. Preto e branco, também, a adolescência: como caminhar em um rio lodoso, sentir estranhos seres aos pés, desaprender a nadar. Preto e branco também a vida adulta - que se enganara, e muito, ao alinhavar sua doutrina pessoal à certeza de que o abandono paternal seria o último, embora fosse só o primeiro. Tantos vieram depois - tantos ainda para ocorrer, se houvesse tempo. Mas, continuando: nesse um segundo, nesse milésimo de segundo, bem provável que se adote uma postura mais amena, mais arcaica. Todo mundo é gentil depois da morte. Certo é que ocorreria até mesmo um arrependimento - um quero voltar, mas não há mais espaço; nem físico, nem lógico. Relembrava: quando ainda possuía receios e buscava compreensão profunda a respeito das coisas que insistiam em fazer sombra à sua cabeça, curva, revestida de tristeza & medo, sentia pena profunda de si mesmo e de todo mundo que um dia havia chegado à estaca final da ponte: daqui, não há caminho outro a não ser pular ou parecer covarde. Quase um Iscariotes, dando o beijo verdadeiro na face do afeto também verdadeiro ao mesmo tempo em que traía também verdadeiramente qualquer dignidade que se dizia sua. Por trinta moedas de prata ou por angústia, no final, o que se busca - após anos e anos de agudos e ressentidos vou-ficar-bem-vou-ficar-bem - é, em resumo clássico, atingir um lugar de paz. Que depois será recriminado, contado a título de penalização, atribuição de culpa, vandalismo à história, até que a higienização automática se inicie para se chegar à geração familiar na qual alguém dirá: hein? Quem? Era doido? Nesta fração de segundo a qual não se atribui relevância, porque dos mortos não houve ainda um legítimo que retornou para contar a história - é certamente aí que se passa a vida. Ou talvez tenha retornado: o argumento típico de que a vida passa diante dos olhos pode ser o indício fundamental de que alguma pessoa, de maneira legítima, esteve lá: entre o caos e o sossego. Mas, infelizmente, a experiência não existe sem a experiência; para crê-la, é preciso também tê-la. E continua em aperto profundo o ato de respirar dia após dia como se estivesse em um lugar trancado à chave, janelas e portas, com uma fogueira caudalosa no centro sem qualquer indício de trégua. Como estar num buraco raso, mas continuar cavando ao fundo. Cravando as unhas na terra de maneira árdua, grave, animalesca o suficiente para se chegar a um lugar em que não haja voz, nem fome, nem luz, nem sombra, nem sede, nem medo, nem dor.