sexta-feira, 7 de abril de 2023

Quando faltou luz


(18h e qualquer coisa da sexta-feira da Paixão)

Como estar em um buraco bastante fundo ou ser enterrado vivo. Cravar, eufórico, a unha no barro ou na pedra ou na madeira, buscando forma de retornar à existência. Após anos e anos de pedir para que se finalizasse a existência. Até depois da morte repleto e revestido de controvérsia. Porque nos momentos em que experimentava o limiar - o quase lá, o está próximo, o depois da curva - sempre também chegava à conclusão de que entre a vida é o nada sobrava um segundo de consciência no qual se conhecia tudo. Conhecimentos de Alexandria, coisas bárbaras, anteriormente postas em papéis já queimados, histórias que deixaram de ser contadas porque os conhecedores também já haviam morrido. Nesse um segundo, que talvez não passe de uma fração de, mas que é - por seu turno - suficiente: talvez nele se conclua pelos vícios anteriores e pelas razões que confundiam os sentidos e atribuíam certo tom acinzentado à memória. Lembrava: a infância era preto e branco; a primeira, a segunda e todas as outras subsequentes. Era acinzentado quando ouvia grunhidos em tom de piada a respeito de coisas para as quais não dispunha de qualquer controle. Preto e branco, também, a adolescência: como caminhar em um rio lodoso, sentir estranhos seres aos pés, desaprender a nadar. Preto e branco também a vida adulta - que se enganara, e muito, ao alinhavar sua doutrina pessoal à certeza de que o abandono paternal seria o último, embora fosse só o primeiro. Tantos vieram depois - tantos ainda para ocorrer, se houvesse tempo. Mas, continuando: nesse um segundo, nesse milésimo de segundo, bem provável que se adote uma postura mais amena, mais arcaica. Todo mundo é gentil depois da morte. Certo é que ocorreria até mesmo um arrependimento - um quero voltar, mas não há mais espaço; nem físico, nem lógico. Relembrava: quando ainda possuía receios e buscava compreensão profunda a respeito das coisas que insistiam em fazer sombra à sua cabeça, curva, revestida de tristeza & medo, sentia pena profunda de si mesmo e de todo mundo que um dia havia chegado à estaca final da ponte: daqui, não há caminho outro a não ser pular ou parecer covarde. Quase um Iscariotes, dando o beijo verdadeiro na face do afeto também verdadeiro ao mesmo tempo em que traía também verdadeiramente qualquer dignidade que se dizia sua. Por trinta moedas de prata ou por angústia, no final, o que se busca - após anos e anos de agudos e ressentidos vou-ficar-bem-vou-ficar-bem - é, em resumo clássico, atingir um lugar de paz. Que depois será recriminado, contado a título de penalização, atribuição de culpa, vandalismo à história, até que a higienização automática se inicie para se chegar à geração familiar na qual alguém dirá: hein? Quem? Era doido? Nesta fração de segundo a qual não se atribui relevância, porque dos mortos não houve ainda um legítimo que retornou para contar a história - é certamente aí que se passa a vida. Ou talvez tenha retornado: o argumento típico de que a vida passa diante dos olhos pode ser o indício fundamental de que alguma pessoa, de maneira legítima, esteve lá: entre o caos e o sossego. Mas, infelizmente, a experiência não existe sem a experiência; para crê-la, é preciso também tê-la. E continua em aperto profundo o ato de respirar dia após dia como se estivesse em um lugar trancado à chave, janelas e portas, com uma fogueira caudalosa no centro sem qualquer indício de trégua.  Como estar num buraco raso, mas continuar cavando ao fundo. Cravando as unhas na terra de maneira árdua, grave, animalesca o suficiente para se chegar a um lugar em que não haja voz, nem fome, nem luz, nem sombra, nem sede, nem medo, nem dor.

sexta-feira, 20 de agosto de 2021

I

Embora não soubessem precisar quando, sabiam que haveria um momento no futuro, esperado e caudaloso, em que se utilizariam da prerrogativa de dizer não. Aquilo de inventar justificativas, encontrar razões, fundamentos bastantes para que não pudessem ser felizes. Coisa assim. O mais perturbado lembrava sempre que tinham se conhecido de uma forma insuspeitada, como quem toma um susto ao mergulhar fundo da piscina e dar de cara, no retorno, com um trovão. Assim: viu, buscou fôlego, recuperou-se do espanto e achou que estava muito apaixonado. O mais tímido, em outro momento, depois que já haviam bebido e dormido juntos, chegaria até mesmo a se perguntar se não era só carência do outro; se sua pressa não encontrava respaldo em um buraco que era dele e que era alimentado dia após dia. Não colocou em voz alta a pergunta. Acho que faria um eco alto demais e que a relação recém-iniciada estremeceria de forma muito estranha. Como a ponte Golden Gate quando caiu, naquele dia em que caiu e matou o cachorro abandonado no carro. Porque chegaria o momento da separação homérica. Da separação não: da anunciação da separação, na intenção de que o vão fosse abrindo, abrindo, abrindo, abrindo, abrindo, até chegar àquele lugar em que não se tem mais volta. Mas por enquanto preferiam acreditar que o que se iniciava era bonito, calmo, estreito, retilíneo, harmonioso e longo.


No começo, os dias eram contados. Parecia certo aos dois contabilizar o tempo em que estavam juntos, as horas, os minutos, as piadas, as citações que faziam, os filmes que se prometiam ver juntos, as músicas cantadas no chuveiro ou enquanto se fazia alguma comida, os sonhos estranhos, os pesadelos, os beijos, os abraços, os cortes de cabelo, as brigas com parentes, os desafetos o passado. Tudo era contado à exaustão. Também porque parecia fazer sentido estabelecer um controle: fixar cada coisa no seu lugar e no seu número específico. Atribuir exatidão suficiente para que pudessem nomear depois: estamos sentindo isso ou aquilo. Para que pudessem depois catalogar de maneira detalhada: essa dor que senti naquele dia de fevereiro em que choveu forte era azul; quando morri de vergonha, vermelho; amarelo escandaloso quando vimos o sol se pondo da janela do quarto. Um controle que perpassava todos os pontos do mundo – das letras aos números, dos números às imagens. Até mesmo para que a mente não pregasse peças depois, trouxesse lembranças não-ocorridas, adotasse para si histórias que nunca chegaram a ser contadas, que é o que acontece quando algo é finalizado cedo. Só assim, detalhando a própria vida, é que poderiam concluir com certeza estarem ou não se enganando. A criação da história por trás da história na intenção de oferecê-la um aspecto mais palatável.


(...)

 


quinta-feira, 1 de abril de 2021

Quarentena I

P/ L.

Não sabiam. Quando despencaram do alto daquele lugar antigo em que se encontravam, seguro o lugar apesar de alto, não faziam a mínima ideia do que viria a seguir. Se alguém pudesse, ou tivesse pensado em utilizar uma metáfora, diria que aquilo era como um salto no escuro. Como palhaços de circo que pulam daquele despenhadeiro em uma cama-elástica estirada lá na parte mais de baixo do mundo, receosos, uns poucos minutos antes da queda completa, de morrer abruptamente e não poder contar o fim da história.

Não foi o que aconteceu. A situação é que, embora não soubessem, sobreviveram. E caíram de pé. Feito gatos treinados, como se tivessem já tantas e tantas vezes articulado uma desgraça, um possível erro, uma tragédia, um problema, de forma que não existisse mais espaço para acontecer qualquer coisa desse tom, que a coisa acabou, de fato, não ocorrendo. 

Falaram muito no começo. Contaram do livro que haviam lido no dia anterior e do filme que veriam no dia depois de amanhã e da atriz que havia decidido se esconder numa chácara no interior do Pará e das vontades de sair de casa para que o mundo pudesse ser enxergado de uma forma mais tranquila, e não só pela janela do quarto. Havia o problema da peste, claro, parecida com a de Camus; as pessoas morrendo a cântaros todos os dias, a ausência completa de um líder apto ao comando da sequência de atos vazios de efetividade e cheios até a tampa de sangue humano. Mas naquele lugar-comum de conversa atravessada de história antiga e futura, a impressão que ficava era que a realidade era outra; uma diversa. E não a realidade que chegaria só depois de descoberta a cura, onde poderiam apontar – fisicamente – para determinado corpo ou objeto e tocar sem qualquer outro receio.

Pensavam sempre no quão estranho foi despencar enquanto o mundo também despencava. E não sofrer qualquer tipo de prejuízo – uma queda para algo bom, diferente das corriqueiras notícias transmitidas na mídia sensacionalista, nos jornais municipais, nos grupos das redes sociais. Questionavam internos se não era egoísmo falar de alegria em momentos obscuros e se seriam depois cobrados pelo distanciamento quase completo das questões carnais. Como quem atribui à própria vida uma formalidade capaz de criar outra vida. Não sabiam que aquele escape era a única possibilidade de não entrarem também no turbilhão de caos.

Ele não tinha conhecimento da estratégia usada pelo outro para se esconder durante todo aquele tempo em algum canto desconhecido da cidade. Se não saía de casa antes mesmo de ser proibido sair de casa. Coisas assim, capazes, naquele momento, de explicar uma ausência prévia. E conversaram. Para chegar à conclusão de que não importavam muito esses buracos, esse não-ocorrido, esse quase-lá, essa falta, esse vão, esse escavado, essa fossa anterior, esse sumiço, esse desconhecimento antecedente.

Conheciam a página da história em quadrinho do ensino médio que fazia uma referência bem sucinta ao poeta Rumi. E que costumava dizer assim, caso estivessem se lembrando corretamente: é pela ferida que entra a luz. 

 

terça-feira, 15 de novembro de 2016

O primeiro Lucas. E também o último

Você sabe que sempre representou para mim uma ruptura com tudo que eu acreditava ser a maior resistência viva pela qual meu corpo poderia passar. E, relutando, insistindo que não haveria outros meios de contornar isso que contornamos, chegamos ao ponto máximo e de maior tristeza a qual duas pessoas podem chegar: o pó; o quase nada que resta quando sopram ventos fortes demais e os coqueiros descem, as casas tremem, as roupas caem do varal. Hoje mesmo tive medo dos seus olhos secando meus espaços, retorcendo leve o meu pé grande e puxando forte o meu cabelo pouco. As suas unhas perfurando agressivas o meu olho inerte e clássico, o seu cotovelo perfurando meu estômago, a sua respiração pausada e caudalosa me dizendo sem palavras, mas com uma força de humano velho: eu quero tudo. E quero nada. Os planetas não mais se unirão. As plantas plantadas não chegarão nunca a dar frutos. Os rios nascidos não tomarão nunca o rumo dos nossos próprios lábios. Morreremos de sede. Fadados à procura de uma coragem que nos faça adentrar a mão no que é desconhecido, leve, líquido, puro e rápido, como borboletas do cazuza que desistem da vida após vinte e quatro horas.

Eu conto todos os dias as horas para que eu te entregue de bom grado todo o silêncio que guardo, semanalmente, como um código, uma senha, uma oração, um pedido, um segredo, uma vergonha; todos os dias eu conto as horas que escondo para ti dentro dos meus olhos ou perto do fígado, debaixo da pele, para que você sinta por inteiro quando existir resolução de passada. Para que quando eu me concluir assim: é o momento, seja mesmo o momento de não mais ficar encolhido em posição fetal e sim o segundo respiratório em que te adivinho como um dos meus mais improváveis futuros. O quarto imundo. Os cobertores caídos ao chão. Urgência em beber. Tenho bebido muito nos últimos tempos. Aprendi rápido: vodka nacional, cerveja, uísque, as baladinhas infernais da faculdade - tantos gurizinhos para agarrar forte e certo - catuaba, vinho tinto, champanhe, tudo quanto há de possibilidades até que caia estirado feito merda no chão do quarto, em completa desconexão com a realidade.

Marcelo disse um dia: o tempo chuvoso me salva, eu quase piro, tu saca, tanta atividade para fazer daquelas matérias subjetivas e urbanas, a preocupação com os homens que não tem help ou fuck, estão solitários os homens, não sei, faço direito ou antropologia? E em todas as vezes eu respondia também: estou fodido. Como se não estivessem as pessoas todas do século XXI em condição inalienável de desgraçamento, audaciosos ainda por insistirem em respirar esse ar. Contaminado sem nenhum pensamento lógico por todos os carros movidos a combustível, as fogueiras no fundo do quintal, as fotos de namorados antigos queimadas, diários, cartas que escreveu e não enviou, papéis que recebeu e sequer leu, revistas nacionais golpistas, livros de ensino médio, foucaults, platões, queimem todos. Como uma cena do livro Fahrenheit 151. Não que estivesse mais naquele tempo compenetrado onde te dizia palavras sábias e ponderava, olhando dentro dos seus olhos, no instante mesmo em que imaginava possibilidades diversas e maneiras abruptas de não morrer de tédio; de não morrer de amor. Frequentes as vezes em que coloquei por sobre o seu rosto a mão ferida e de puro sangue, à época em que você não cultivava nojo algum, ou horror, e não me retirava, me conduzia e me colocava sempre nos pedaços em que seu corpo se dividia antes de dormir: passado, presente e futuro, misturando-se como se houvesse controle absoluto de tudo que acontecia.

As paredes ruíram ao meu lado, os cães todos se rasgaram-se todos com os dentes pontiagudos da raiva imaculada, mães choraram a perda dos filhos e escreveram nos jornais municipais sobre a morte do cantor de rock que não aconteceu. E nunca ouviram sequer uma música. Americanas, elas, satisfeitas em encontrar meios de se evadir das responsabilidades, enterros bilaterais, cerimônias fúnebres, partos anunciados, filhos homossexuais usando ácido dentro do quarto, toda uma parcimônia de horror e desprendimento dos moldes correlatos. E certos. E ensinados pela bíblia cristã que trazia palavras como abominação e horror. As chuvas maltratando as plantações de arroz, as enxurradas carregando livros de ficção científica, os guarda-chuvas em desdobramentos como se fossem folhas de coqueiro à sorte do vento, as chaves quebradas, as portas arrombadas, as vidas arrombadas como cofres do banco central depois de uma explosão de cinema, os pés calejados tocando os pés calejados.

Você sabe que deu novo significado em mim à paralisia que me punha contra a parede sempre que eu tentava ir adiante e em direção a uma felicidade que parecia utopia forjada em lágrima. Como se esperar fosse a única oportunidade reservada por uma vida comprida. Como se o movimento corporal interferisse no movimento terrestre. Como se a próxima chance de ser perfurado de faca fosse distante demais para aguardar com espera. Você sabe que deu em mim frutíferos pântanos de árvores que normalmente nem afloram e que, resumindo isso a momentos específicos, trouxe para o meio da lama uma sequência de pássaros coloridos e raros demais para se alimentar disso que eu exasperava: você e suas músicas e seus poemas mais bonitos e suas fotografias e o frio que eu sentia quando era só. Você sabe que deu a todos os corpos que fodi e a todos os corpos que me foderam uma roupagem diferente da que os penetrou depois que nos despedimos com um até logo e confidenciou a eles um lugar abastado e quente como o inferno, por me descobrirem antes de você e por me compreenderem tão bem ainda que você tivesse ao menos tentado. Pulsado.

Permaneço fadado ao que não aconteceu e que imagino como uma tragédia grega; uma epopeia construída em livro comprido e de profundidade oceânica, enquanto nos veem como se fôssemos importantes: como quase santos ou entidades demoníacas aladas e de chifres. Acordo todas as segundas-feiras com a certeza de que a terça-feira vem depressa e de que todos os outros dias correrão como os metrôs correm por baixo das cidades para desaguar à luz das escadarias que dão para um ambiente totalmente diferente e novo. Revelo seu nome nos papéis velhos e dentro de sacolas escondidas por baixo do colchão e decifro cada vez mais do que tenho tentado me desvencilhar desde que percebi que era uma pena não valer a pena.

É claro algumas coisas ficaram para trás. Suas camisetas de super heróis e cds de MPB. Sua faculdade numérica e seus pais difíceis. Suas pastas de desenhos inúteis e seu fone de ouvido branco. Seu dedo fino. Sua caneca de onça-pintada comprada na visita ao Pantanal. Sua revista Playboy de quando você ainda imaginava ser hétero. Seu DVD do documentário da Nina Simone e sua camiseta pintada a mão, ela naquele show quase-póstumo em que fica putíssima e manda o cara se sentar para que continue sendo a única estrela do teatro. Seu dente meio pontiagudo e afiado, talvez imperceptivelmente quebrado aos olhos leigos. Seu moletom azul escuro, sua bermuda azul claro. Seu silêncio. Sua barba e seu rosto de ângulo forte. Seu dente e seu medo. Seu medo da morte.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

A voz mais baixa


Eu tenho pensado em uma coisa diferente, quase fatídica, dessas que se atribuem às pessoas em momentos complexos da vida onde o ser humano se depara inteiro com uma dúvida cruel a respeito do que ser, do you know? Primeiro param então de pensar em futuros e planejar onomatopeias e criam para si uma firmeza que tem conexão a maneira que se relacionam com as outras pessoas e as outras pessoas todas têm uma maneira intensa e extrema de dizer como vai como vai sem parecerem ridículas ou passadas. Ao mesmo tempo em que tentam, então, com força circunstancial não deixarem para muito além do que existe a atribuição mesmo que davam a coisa divina e celestial, frente a um processo duro e tenso e rígido em que as mãos se colocam prematuramente adiantadas ao corpo quente e não conseguem completar ato nenhum diferente de pedir pedir perdão e socorro.

Há tempos que não era mais, como carne viva, algo capaz de uma atitude catastrófica e explosiva, dar o chute no planeta, correr feito maluco pelo meio da avenida, cantar alto pra caralho uma música suja, fazer sexo com um cara em que se está apaixonado, beber coisa desconhecida, deitar no meio da ponte e esperar o caminhão, pular da rocha alta em direção ao lago raso, sair de moto circunspecto pelo escuro rodeado de mato, fumar maconha na montanha impossível de se alcançar sozinho, raspar o cabelo no zero e parecer um maníaco do parque, viajar o país todo em uma kombi feito o sentimentalismo exacerbado e completamente juvenil que surgia quando se falava de into de wild.

Você que contribuiu, e não é coisa simples abrir assim a verdade para que não me sinta tão pressionado, mas você contribuiu para que eu ousasse pensar diferente, assim. Fatídico, assim. Você contribuiu em minha atitude de atribuir assim às pessoas essa coisa nova, uma forma mais complexa e inteira de continuar seguindo seguindo seguindo por entre as pessoas que cortam os pulsos, têm doenças dificílimas de compreender, dão passos compridos e dispersos e sem sentido rumo a qualquer coisa que, em verdade, também não fazem ideia nenhuma do que é. Você que contribuiu, e não é fácil te dizer a respeito de contribuições porque há atribulação, há dificuldade, mas você contribuiu para que eu acordasse de um sono fundo e denso em que eu me encontrava para, num susto, colocar as mãos afora e tentar tocar essa luz que não condensa e não tem corpo. 

Não acredito que exista depois maior do que esse presente em que vivemos e que é complicado a ponto de sufocar os mais frágeis. Não acredito que me tome por apreensão estar apertado em uma caixa de madeira quando chorarem as pessoas que eu amo. Não acredito que vivi de forma tão medíocre por medo de ser ridículo. Não acredito que não cai de bêbado por me sentir envergonhado pelo que falariam depois a respeito da minha alma. Não acredito que não fui o que era por visualizar demais as conversas tristes tristes de uma gente que é, em tudo, desespero. Não acredito que não disse ao outro que sentia um pesar enorme e difícil de engolir por ter o enxergado ir embora, como se vai embora de um restaurante ou de uma festa. Não acredito que acordei todos os dias cedo para ir ao trabalho e não para a praia. Não acredito que não mudei de cidade por medo de morrer de fome, medo de arma de fogo, medo de morrer de medo. Não acredito que ainda cogito não acreditar. Mais que questionar vislumbrar mais que cogitar imaginar ponderar. Eu subsisti. E contra subsistência não há remédio: aceita-se. 

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Cruzamento I

Acho terrível o fato de que depois de amanhã você some, sublima o corpo, desaparece a voz e a gente se desencontra. E não existe mais beijo, abraço, suor, saliva, calor, coisas que acontecem, coisas que constituem o acontecimento: não existe mais sexo pungente nem desespero para que haja também um depois de amanhã. Até que chegue depois de amanhã, acho terrível o fato de que ainda haverá uma esperança sublime e desconexa entre o meu corpo e o seu corpo: esperança de que um dia se tornem um só corpo, completamente abastado daqueles preceitos e normas religiosas que dizem respeito a limites. Porque o corpo gostaria mesmo de se juntar ao outro, desordenadamente falando, a glande com o escuro e o silêncio que fica depois que a gente consegue ser muito mais do que era sozinho. Acho terrível que me angustie ainda tanto o que será depois se não for mais prazer exuberante,  meu dente batendo de leve contra o seu dente. Ainda sequer disse eu te amo.

Encerrará também em mim isso, como tantas outras vezes encerrou, além do meu sono, acordando dilacerado às cinco da manhã e, como num parto, o querer abrupto voltar para dentro do útero? chinelas todas que desfiz o inverso para que não morresse a mãe, o pai ausente, como diziam que acontecia? como encerrei em mim sangue corrente que surgiu logo depois que passei de leve a faca de cebola no dedo esticado sobre a pia da cozinha à hora do jantar? Acho terrível que não constituamos família, que não tenhamos filhos, que não possamos ser capazes de uma adoção frutífera de um casal de crianças do Zimbábue, da praça Roosevelt, ali mesmo do setor próximo ao cemitério. Em que se enterram seres sem qualquer perspectiva.

Para onde é que caminhamos nós, sublinhando frases em jornais noturnos, deitados no sofá em dia de domingo, as pernas cruzadas à frente do corpo enquanto há uma tentativa ritualizada de não afastar, ou se afastar. Acho terrível que não possamos contar a nossas famílias o quanto ontem fui feliz, o quanto ontem me entreguei de abertos braços limpos, o quanto ontem me fui e fui seu também, como há tempos não me tenho sido, e como nunca fui de qualquer outra pessoa. Entre o nó do seu pescoço fundo e quente, no peso que houve na sua mão sobre as minhas costas descobrindo coisas que não se descobrem corriqueiramente. E se em dia nenhum da sua vida você encontrar alguma coisa válida como encontrou validade em mim a ponto de me pedir para aparecer de novo? e de novo? Tantas coisas incompreensíveis e que duram apenas um dia um momento um instante para que depois se note tarde demais que é tarde demais. Acho terrível que eu te reconheça há tão pouco tempo como alguém capaz de me fazer uma pessoa não vazia a ponto de cair feito saco inerte mas uma retidão feito árvore viva, tronco grosso, vida densa, que não se curva e que não se altera diante de nada nem de ninguém.

Posso dizer a você sem nenhuma culpa ou medo que me senti assim? Raridade não me obstruir a ponto de sequer conseguir concluir e dizer uma palavra de despedida, apertar mãos, ponderar sobre você fechando o portão enquanto me olha caminhando em direção a minha casa, que é tão longe. Acho terrível que as pessoas não possam morar juntas. Acho terrível que não possam não fazer rodeios. Acho terrível que não possam não fingir e que não possam não dissimular e que se sintam horrorizadas por entregar de livre pretensão e por espontânea vontade a mão à palmatória. Vai ferir tanto a explosão da régua nas linhas da minha mão de quem segurou também uma vez uma mão que se dedicou sem qualquer temor ou tremor à dor de uma palmatória oposta.

Acho terrível que as pessoas se encontrem, às vezes, súbitas, completamente tortas e que mesmo após um vento que as atribui de novo valor de equilíbrio, continuem se deitando se deitando se deitando  até que os músculos cheguem, exaustos, à capacidade de não se levantarem nunca nunca nunca mais.

I am coming back

Tenho voltado de novo ao começo, que é onde me deparo frente à porta do quarto, fechada, tranco os olhos, e indago se é isso o que vem antes do sono. As mãos têm tremido. Os pés têm doído de um jeito que não devem doer os pés de quem não corre. A cabeça tem quase explodido feito bomba programada, enquanto deixo a comida no fogo e perco o tempo, perco a fome e me perco. Logo depois que o homem foi embora teve início um pensamento fundo, mas também muito forte, de que eu poderia quem sabe estar deixando para trás uma coisa importante. Acreditei profundo que gostava muito dele. Lamentei feito um louco o quão demorado seria para superar o espaço de ausência que ficou depois que ele desceu a escadaria do prédio.

Uma ou outra vez imagino estar passando muito depressa. Porque eu vou para o trabalho cedo, pego o metrô, passo sentado algumas horas em uma poltrona que não é tão confortável e volto para casa. Tomo banho demorado e sem ervas. Como qualquer coisa simples. Corro pra faculdade e escuto a respeito de Rousseau e a respeito de Arendt e dignifico em mim um força maculada pelo horror que eu ainda tenho em ser o último a sair da classe. Lembro-me do tio do homem que morreu num incêndio quando tinha trinta e três, como demorou muito para perceber o fogo. Como ficou e ficou para depois até que era muito tarde. Para sair e para ficar vivo. Por isso é que me afasto do sistema normativo, me ponho mal educado, revisto chamadas que me concluem ali como presente e passo rápido pelo portão da universidade, que é para não correr nenhum risco. Que é porque não tenho mais fôlego para riscos.

Tenho criado coragem para tatuagem. É você. Me perguntam de onde veio a ideia de fazer isso, nunca antes havia sequer falado, repetem. E eu conto das músicas que notei escritas perto de um ombro que vi e de uma árvore perpetuada em uma perna que toquei e quase sempre choro choro explicando que não tem nada a ver com os outros e sim comigo e com o que eu quero de absolutamente novo para mim e para o meu corpo. Percebo que não tenho corpo, tenho alma. E que tem me pesado muito a alma que caminha todos os dias até pegar o metrô, sentar no escritório branco, dar a volta na chave e entrar em casa, ir à luta escutar histórias de democracia e voltar, todos os dias, como se nunca o tivesse feito, para essa pequena pausa na noite onde eu me pergunto de novo e de novo a mesma pergunta que diz e indaga se é isso que vem antes do sono.