quinta-feira, 23 de junho de 2016

Cruzamento I

Acho terrível o fato de que depois de amanhã você some, sublima o corpo, desaparece a voz e a gente se desencontra. E não existe mais beijo, abraço, suor, saliva, calor, coisas que acontecem, coisas que constituem o acontecimento: não existe mais sexo pungente nem desespero para que haja também um depois de amanhã. Até que chegue depois de amanhã, acho terrível o fato de que ainda haverá uma esperança sublime e desconexa entre o meu corpo e o seu corpo: esperança de que um dia se tornem um só corpo, completamente abastado daqueles preceitos e normas religiosas que dizem respeito a limites. Porque o corpo gostaria mesmo de se juntar ao outro, desordenadamente falando, a glande com o escuro e o silêncio que fica depois que a gente consegue ser muito mais do que era sozinho. Acho terrível que me angustie ainda tanto o que será depois se não for mais prazer exuberante,  meu dente batendo de leve contra o seu dente. Ainda sequer disse eu te amo.

Encerrará também em mim isso, como tantas outras vezes encerrou, além do meu sono, acordando dilacerado às cinco da manhã e, como num parto, o querer abrupto voltar para dentro do útero? chinelas todas que desfiz o inverso para que não morresse a mãe, o pai ausente, como diziam que acontecia? como encerrei em mim sangue corrente que surgiu logo depois que passei de leve a faca de cebola no dedo esticado sobre a pia da cozinha à hora do jantar? Acho terrível que não constituamos família, que não tenhamos filhos, que não possamos ser capazes de uma adoção frutífera de um casal de crianças do Zimbábue, da praça Roosevelt, ali mesmo do setor próximo ao cemitério. Em que se enterram seres sem qualquer perspectiva.

Para onde é que caminhamos nós, sublinhando frases em jornais noturnos, deitados no sofá em dia de domingo, as pernas cruzadas à frente do corpo enquanto há uma tentativa ritualizada de não afastar, ou se afastar. Acho terrível que não possamos contar a nossas famílias o quanto ontem fui feliz, o quanto ontem me entreguei de abertos braços limpos, o quanto ontem me fui e fui seu também, como há tempos não me tenho sido, e como nunca fui de qualquer outra pessoa. Entre o nó do seu pescoço fundo e quente, no peso que houve na sua mão sobre as minhas costas descobrindo coisas que não se descobrem corriqueiramente. E se em dia nenhum da sua vida você encontrar alguma coisa válida como encontrou validade em mim a ponto de me pedir para aparecer de novo? e de novo? Tantas coisas incompreensíveis e que duram apenas um dia um momento um instante para que depois se note tarde demais que é tarde demais. Acho terrível que eu te reconheça há tão pouco tempo como alguém capaz de me fazer uma pessoa não vazia a ponto de cair feito saco inerte mas uma retidão feito árvore viva, tronco grosso, vida densa, que não se curva e que não se altera diante de nada nem de ninguém.

Posso dizer a você sem nenhuma culpa ou medo que me senti assim? Raridade não me obstruir a ponto de sequer conseguir concluir e dizer uma palavra de despedida, apertar mãos, ponderar sobre você fechando o portão enquanto me olha caminhando em direção a minha casa, que é tão longe. Acho terrível que as pessoas não possam morar juntas. Acho terrível que não possam não fazer rodeios. Acho terrível que não possam não fingir e que não possam não dissimular e que se sintam horrorizadas por entregar de livre pretensão e por espontânea vontade a mão à palmatória. Vai ferir tanto a explosão da régua nas linhas da minha mão de quem segurou também uma vez uma mão que se dedicou sem qualquer temor ou tremor à dor de uma palmatória oposta.

Acho terrível que as pessoas se encontrem, às vezes, súbitas, completamente tortas e que mesmo após um vento que as atribui de novo valor de equilíbrio, continuem se deitando se deitando se deitando  até que os músculos cheguem, exaustos, à capacidade de não se levantarem nunca nunca nunca mais.

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