quinta-feira, 23 de junho de 2016

Às árvores, as árvores

Ademais, às vezes ainda me subverte o medo a isto que não entendo. E de novo, não sei: não saber é o mais próximo que chego que compreender a razão da loucura. Assim: como não fui santo, como não me entreguei ainda com uma veemência de cego ao que vida me proporciona, não tenho tido epifanias nem qualidades semelhantes àquelas pessoas que não têm medo rubro. Parecido a uma árvore. A que plantaram em lugar absolutamente ermo e que agora, sofrida, fugaz, busca e insiste por um sol difícil e caudaloso que respira e sufoca uma sombra aguda e densa que existe também à espera da morta.

Não que queria o mundo me subestimando e me colocando à mercê do que subtrai em mim o de mais verdadeiro: como duas árvores, nasceram tão vivos e tão intrínsecos à terra que não poderiam mais fazer coisa alguma a não ser viver. E viver é triste. Parece insensato dizer assim, pausado e silábico, viver é triste, mas o teatro insiste, a porta abre-se sorrateira e densa, devagar como nuvem de chuva: viver é triste e as árvores demoram cada vez mais para dar frutos. Assim: a água caiu, o vento soprou, sorveram os pássaros e os bichos e os insetos e pisaram e caíram e dançaram e insistiram com uma inspiração digna de quem tem fé inquebrantável. É tão verdadeiro insistir por uma coisa em que se acredita com a força de uma albatroz.

Realidade é que não se sabiam. Cada um por si, solitários, dispersos em universos quase que completamente diferentes, repetiam mentalmente que não havia mais nada a fazer a não ser reverberar de luz viva e clara a qualidade que existia, nós dois, para que fossem pessoas sadias e sádicas  - no sentido incentivador do que era estar dentro do corpo de uma outra pessoa que não a pessoa inicial. A árvore se levantou cedo e não colou os olhos para a direção da luz. As folhas das árvores se embrenharam tanto e tão desesperadas também no ar esparso e tumultuoso do tempo que não continha memória. E o pior é que continham memória. Não continha memória o tempo dos que continham memória e que a partir do momento em que se entregaram, se tornaram carne pura de uma outra só carne exposta à lucidez dos que compram a fatiam o alimento salutar da família tradicional.

As árvores se entreolhavam, porque eram duas, todos os dias, às sete da manhã, que é o horário que haviam sorrateiras combinado como de acordo para que acordassem, lânguidas, nada soturnas, breves e ríspidas como pássaros de asa curta. Estivesse então menos possuído por aquilo que o possuía e seria fácil não se entreter, não se submeter, não se comprometer a: cantar resistir insistir persistir por qualquer coisa um pouco mais complexa do que o que existe depois da morte. Eles é que como coisas ásperas e vivas se gostavam como quem tem artéria e sangue, como quem tem dentro das veias correndo líquido vivo e restaurador, colorido, pulsante, enérgico. E que dava medo.

Paulatinamente diria de novo que sentia medo de como seria se não tivesse se tornado, gradativamente, alguém que aceita o estranho e que respeita o próprio sentimento que brota e que diz: você se retém você não se expande você é isso. Abranger o outro é principalmente não se abranger a ponto de ultrapassar o que o limite corporal do outro exige de quem olha de cima. Como se não existissem fronteiras escritas e fincadas, juncadas ao chão, para que sua copas se alimentassem e crescessem e se tornassem duráveis na atitude categórica que há em que não se dar por vencido. Tão grande é o horizonte que existe também de uma forma arrasadora e abrasadora para bem depois do que a vista vê e faz com que as coisas que existem - porque existem árvores, existem gentes, existem pessoas, existem homens, existem possibilidades, existem beijos, existem horrores, existem pasmos, existem traumas, existem coincidências, existem impossibilidades, existem novidades, existem dúvidas, existem árvores - se tornem lúcidas feito um pedaço de pano ou papel machê. Existe o não querer e existe a capacidade iminente a nós de que não seja tão dolorido, tão grande é a possibilidade: vez em quando uma barba um pouco mais densa, um riso um pouco mais confuso, um dente um pouco mais torto. Imprime em meio ao silêncio um buraco infinito que depois de um surto se torna finito, pequeno o buraco, as barbas mútuas se tornam uma só barba e os risos duros transmutam-se num só riso mole.

É preciso adubar e colocar o que a humanidade não sobrevive sem dizer sem, repetir com palavas bonitas toda a oração do você é capaz e observar de longe a oportunidade que há de a mão se estique a toque também a outra mão esticada, tensa e rígida, em direção oposta à primária. Em direção contrária.

Não têm medo as árvores gêmeas quando citam seus nomes e não costuram no ato que deveriam ser denominadas uma árvore só, um gênero só, uma coisa só a que se atribui o mesmo tipo de valor simplesmente porque sobrevive em local de semelhança. Vibrou de forma esplêndida a vontade dele de com um balanço, entregar-se ao vento local sem medo da vingança ou da violência breve. A visão e o que conseguiu enxergar: sobrou nas duas, como em um nado sincronizado, duas árvores - as mãos e os pés que se colocam para cima e para baixo como se houvesse simplesmente a chance de serem perfeitos - como é para ser, árduo, ativo, incompreensivelmente ácido - como se não estivesse presente ainda no mundo o erro e a formalidade e a resignação: sobrou nas duas a vontade para que tocassem os galhos as mãos as coisas que sentiam com uma exatidão e uma identidade idênticas em suma às mulheres que apertam com força o ombro de seus homens. Ou aos olhos da árvore. Por trás de óculos. Esparsos e de aros escuros.  

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