Tenho voltado de novo ao começo, que é onde me deparo frente à porta do quarto, fechada, tranco os olhos, e indago se é isso o que vem antes do sono. As mãos têm tremido. Os pés têm doído de um jeito que não devem doer os pés de quem não corre. A cabeça tem quase explodido feito bomba programada, enquanto deixo a comida no fogo e perco o tempo, perco a fome e me perco. Logo depois que o homem foi embora teve início um pensamento fundo, mas também muito forte, de que eu poderia quem sabe estar deixando para trás uma coisa importante. Acreditei profundo que gostava muito dele. Lamentei feito um louco o quão demorado seria para superar o espaço de ausência que ficou depois que ele desceu a escadaria do prédio.
Uma ou outra vez imagino estar passando muito depressa. Porque eu vou para o trabalho cedo, pego o metrô, passo sentado algumas horas em uma poltrona que não é tão confortável e volto para casa. Tomo banho demorado e sem ervas. Como qualquer coisa simples. Corro pra faculdade e escuto a respeito de Rousseau e a respeito de Arendt e dignifico em mim um força maculada pelo horror que eu ainda tenho em ser o último a sair da classe. Lembro-me do tio do homem que morreu num incêndio quando tinha trinta e três, como demorou muito para perceber o fogo. Como ficou e ficou para depois até que era muito tarde. Para sair e para ficar vivo. Por isso é que me afasto do sistema normativo, me ponho mal educado, revisto chamadas que me concluem ali como presente e passo rápido pelo portão da universidade, que é para não correr nenhum risco. Que é porque não tenho mais fôlego para riscos.
Tenho criado coragem para tatuagem. É você. Me perguntam de onde veio a ideia de fazer isso, nunca antes havia sequer falado, repetem. E eu conto das músicas que notei escritas perto de um ombro que vi e de uma árvore perpetuada em uma perna que toquei e quase sempre choro choro explicando que não tem nada a ver com os outros e sim comigo e com o que eu quero de absolutamente novo para mim e para o meu corpo. Percebo que não tenho corpo, tenho alma. E que tem me pesado muito a alma que caminha todos os dias até pegar o metrô, sentar no escritório branco, dar a volta na chave e entrar em casa, ir à luta escutar histórias de democracia e voltar, todos os dias, como se nunca o tivesse feito, para essa pequena pausa na noite onde eu me pergunto de novo e de novo a mesma pergunta que diz e indaga se é isso que vem antes do sono.
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