Embora não soubessem precisar quando, sabiam que haveria um momento no futuro, esperado e caudaloso, em que se utilizariam da prerrogativa de dizer não. Aquilo de inventar justificativas, encontrar razões, fundamentos bastantes para que não pudessem ser felizes. Coisa assim. O mais perturbado lembrava sempre que tinham se conhecido de uma forma insuspeitada, como quem toma um susto ao mergulhar fundo da piscina e dar de cara, no retorno, com um trovão. Assim: viu, buscou fôlego, recuperou-se do espanto e achou que estava muito apaixonado. O mais tímido, em outro momento, depois que já haviam bebido e dormido juntos, chegaria até mesmo a se perguntar se não era só carência do outro; se sua pressa não encontrava respaldo em um buraco que era dele e que era alimentado dia após dia. Não colocou em voz alta a pergunta. Acho que faria um eco alto demais e que a relação recém-iniciada estremeceria de forma muito estranha. Como a ponte Golden Gate quando caiu, naquele dia em que caiu e matou o cachorro abandonado no carro. Porque chegaria o momento da separação homérica. Da separação não: da anunciação da separação, na intenção de que o vão fosse abrindo, abrindo, abrindo, abrindo, abrindo, até chegar àquele lugar em que não se tem mais volta. Mas por enquanto preferiam acreditar que o que se iniciava era bonito, calmo, estreito, retilíneo, harmonioso e longo.
No começo, os dias eram contados. Parecia
certo aos dois contabilizar o tempo em que estavam juntos, as horas, os
minutos, as piadas, as citações que faziam, os filmes que se prometiam ver
juntos, as músicas cantadas no chuveiro ou enquanto se fazia alguma comida, os
sonhos estranhos, os pesadelos, os beijos, os abraços, os cortes de cabelo, as
brigas com parentes, os desafetos o passado. Tudo era contado à exaustão.
Também porque parecia fazer sentido estabelecer um controle: fixar cada coisa
no seu lugar e no seu número específico. Atribuir exatidão suficiente para que
pudessem nomear depois: estamos sentindo isso ou aquilo. Para que pudessem
depois catalogar de maneira detalhada: essa dor que senti naquele dia de
fevereiro em que choveu forte era azul; quando morri de vergonha, vermelho;
amarelo escandaloso quando vimos o sol se pondo da janela do quarto. Um controle
que perpassava todos os pontos do mundo – das letras aos números, dos números às
imagens. Até mesmo para que a mente não pregasse peças depois, trouxesse lembranças
não-ocorridas, adotasse para si histórias que nunca chegaram a ser contadas,
que é o que acontece quando algo é finalizado cedo. Só assim, detalhando a própria
vida, é que poderiam concluir com certeza estarem ou não se enganando. A
criação da história por trás da história na intenção de oferecê-la um aspecto
mais palatável.
(...)
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