terça-feira, 15 de novembro de 2016

O primeiro Lucas. E também o último

Você sabe que sempre representou para mim uma ruptura com tudo que eu acreditava ser a maior resistência viva pela qual meu corpo poderia passar. E, relutando, insistindo que não haveria outros meios de contornar isso que contornamos, chegamos ao ponto máximo e de maior tristeza a qual duas pessoas podem chegar: o pó; o quase nada que resta quando sopram ventos fortes demais e os coqueiros descem, as casas tremem, as roupas caem do varal. Hoje mesmo tive medo dos seus olhos secando meus espaços, retorcendo leve o meu pé grande e puxando forte o meu cabelo pouco. As suas unhas perfurando agressivas o meu olho inerte e clássico, o seu cotovelo perfurando meu estômago, a sua respiração pausada e caudalosa me dizendo sem palavras, mas com uma força de humano velho: eu quero tudo. E quero nada. Os planetas não mais se unirão. As plantas plantadas não chegarão nunca a dar frutos. Os rios nascidos não tomarão nunca o rumo dos nossos próprios lábios. Morreremos de sede. Fadados à procura de uma coragem que nos faça adentrar a mão no que é desconhecido, leve, líquido, puro e rápido, como borboletas do cazuza que desistem da vida após vinte e quatro horas.

Eu conto todos os dias as horas para que eu te entregue de bom grado todo o silêncio que guardo, semanalmente, como um código, uma senha, uma oração, um pedido, um segredo, uma vergonha; todos os dias eu conto as horas que escondo para ti dentro dos meus olhos ou perto do fígado, debaixo da pele, para que você sinta por inteiro quando existir resolução de passada. Para que quando eu me concluir assim: é o momento, seja mesmo o momento de não mais ficar encolhido em posição fetal e sim o segundo respiratório em que te adivinho como um dos meus mais improváveis futuros. O quarto imundo. Os cobertores caídos ao chão. Urgência em beber. Tenho bebido muito nos últimos tempos. Aprendi rápido: vodka nacional, cerveja, uísque, as baladinhas infernais da faculdade - tantos gurizinhos para agarrar forte e certo - catuaba, vinho tinto, champanhe, tudo quanto há de possibilidades até que caia estirado feito merda no chão do quarto, em completa desconexão com a realidade.

Marcelo disse um dia: o tempo chuvoso me salva, eu quase piro, tu saca, tanta atividade para fazer daquelas matérias subjetivas e urbanas, a preocupação com os homens que não tem help ou fuck, estão solitários os homens, não sei, faço direito ou antropologia? E em todas as vezes eu respondia também: estou fodido. Como se não estivessem as pessoas todas do século XXI em condição inalienável de desgraçamento, audaciosos ainda por insistirem em respirar esse ar. Contaminado sem nenhum pensamento lógico por todos os carros movidos a combustível, as fogueiras no fundo do quintal, as fotos de namorados antigos queimadas, diários, cartas que escreveu e não enviou, papéis que recebeu e sequer leu, revistas nacionais golpistas, livros de ensino médio, foucaults, platões, queimem todos. Como uma cena do livro Fahrenheit 151. Não que estivesse mais naquele tempo compenetrado onde te dizia palavras sábias e ponderava, olhando dentro dos seus olhos, no instante mesmo em que imaginava possibilidades diversas e maneiras abruptas de não morrer de tédio; de não morrer de amor. Frequentes as vezes em que coloquei por sobre o seu rosto a mão ferida e de puro sangue, à época em que você não cultivava nojo algum, ou horror, e não me retirava, me conduzia e me colocava sempre nos pedaços em que seu corpo se dividia antes de dormir: passado, presente e futuro, misturando-se como se houvesse controle absoluto de tudo que acontecia.

As paredes ruíram ao meu lado, os cães todos se rasgaram-se todos com os dentes pontiagudos da raiva imaculada, mães choraram a perda dos filhos e escreveram nos jornais municipais sobre a morte do cantor de rock que não aconteceu. E nunca ouviram sequer uma música. Americanas, elas, satisfeitas em encontrar meios de se evadir das responsabilidades, enterros bilaterais, cerimônias fúnebres, partos anunciados, filhos homossexuais usando ácido dentro do quarto, toda uma parcimônia de horror e desprendimento dos moldes correlatos. E certos. E ensinados pela bíblia cristã que trazia palavras como abominação e horror. As chuvas maltratando as plantações de arroz, as enxurradas carregando livros de ficção científica, os guarda-chuvas em desdobramentos como se fossem folhas de coqueiro à sorte do vento, as chaves quebradas, as portas arrombadas, as vidas arrombadas como cofres do banco central depois de uma explosão de cinema, os pés calejados tocando os pés calejados.

Você sabe que deu novo significado em mim à paralisia que me punha contra a parede sempre que eu tentava ir adiante e em direção a uma felicidade que parecia utopia forjada em lágrima. Como se esperar fosse a única oportunidade reservada por uma vida comprida. Como se o movimento corporal interferisse no movimento terrestre. Como se a próxima chance de ser perfurado de faca fosse distante demais para aguardar com espera. Você sabe que deu em mim frutíferos pântanos de árvores que normalmente nem afloram e que, resumindo isso a momentos específicos, trouxe para o meio da lama uma sequência de pássaros coloridos e raros demais para se alimentar disso que eu exasperava: você e suas músicas e seus poemas mais bonitos e suas fotografias e o frio que eu sentia quando era só. Você sabe que deu a todos os corpos que fodi e a todos os corpos que me foderam uma roupagem diferente da que os penetrou depois que nos despedimos com um até logo e confidenciou a eles um lugar abastado e quente como o inferno, por me descobrirem antes de você e por me compreenderem tão bem ainda que você tivesse ao menos tentado. Pulsado.

Permaneço fadado ao que não aconteceu e que imagino como uma tragédia grega; uma epopeia construída em livro comprido e de profundidade oceânica, enquanto nos veem como se fôssemos importantes: como quase santos ou entidades demoníacas aladas e de chifres. Acordo todas as segundas-feiras com a certeza de que a terça-feira vem depressa e de que todos os outros dias correrão como os metrôs correm por baixo das cidades para desaguar à luz das escadarias que dão para um ambiente totalmente diferente e novo. Revelo seu nome nos papéis velhos e dentro de sacolas escondidas por baixo do colchão e decifro cada vez mais do que tenho tentado me desvencilhar desde que percebi que era uma pena não valer a pena.

É claro algumas coisas ficaram para trás. Suas camisetas de super heróis e cds de MPB. Sua faculdade numérica e seus pais difíceis. Suas pastas de desenhos inúteis e seu fone de ouvido branco. Seu dedo fino. Sua caneca de onça-pintada comprada na visita ao Pantanal. Sua revista Playboy de quando você ainda imaginava ser hétero. Seu DVD do documentário da Nina Simone e sua camiseta pintada a mão, ela naquele show quase-póstumo em que fica putíssima e manda o cara se sentar para que continue sendo a única estrela do teatro. Seu dente meio pontiagudo e afiado, talvez imperceptivelmente quebrado aos olhos leigos. Seu moletom azul escuro, sua bermuda azul claro. Seu silêncio. Sua barba e seu rosto de ângulo forte. Seu dente e seu medo. Seu medo da morte.

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