sexta-feira, 20 de agosto de 2021

I

Embora não soubessem precisar quando, sabiam que haveria um momento no futuro, esperado e caudaloso, em que se utilizariam da prerrogativa de dizer não. Aquilo de inventar justificativas, encontrar razões, fundamentos bastantes para que não pudessem ser felizes. Coisa assim. O mais perturbado lembrava sempre que tinham se conhecido de uma forma insuspeitada, como quem toma um susto ao mergulhar fundo da piscina e dar de cara, no retorno, com um trovão. Assim: viu, buscou fôlego, recuperou-se do espanto e achou que estava muito apaixonado. O mais tímido, em outro momento, depois que já haviam bebido e dormido juntos, chegaria até mesmo a se perguntar se não era só carência do outro; se sua pressa não encontrava respaldo em um buraco que era dele e que era alimentado dia após dia. Não colocou em voz alta a pergunta. Acho que faria um eco alto demais e que a relação recém-iniciada estremeceria de forma muito estranha. Como a ponte Golden Gate quando caiu, naquele dia em que caiu e matou o cachorro abandonado no carro. Porque chegaria o momento da separação homérica. Da separação não: da anunciação da separação, na intenção de que o vão fosse abrindo, abrindo, abrindo, abrindo, abrindo, até chegar àquele lugar em que não se tem mais volta. Mas por enquanto preferiam acreditar que o que se iniciava era bonito, calmo, estreito, retilíneo, harmonioso e longo.


No começo, os dias eram contados. Parecia certo aos dois contabilizar o tempo em que estavam juntos, as horas, os minutos, as piadas, as citações que faziam, os filmes que se prometiam ver juntos, as músicas cantadas no chuveiro ou enquanto se fazia alguma comida, os sonhos estranhos, os pesadelos, os beijos, os abraços, os cortes de cabelo, as brigas com parentes, os desafetos o passado. Tudo era contado à exaustão. Também porque parecia fazer sentido estabelecer um controle: fixar cada coisa no seu lugar e no seu número específico. Atribuir exatidão suficiente para que pudessem nomear depois: estamos sentindo isso ou aquilo. Para que pudessem depois catalogar de maneira detalhada: essa dor que senti naquele dia de fevereiro em que choveu forte era azul; quando morri de vergonha, vermelho; amarelo escandaloso quando vimos o sol se pondo da janela do quarto. Um controle que perpassava todos os pontos do mundo – das letras aos números, dos números às imagens. Até mesmo para que a mente não pregasse peças depois, trouxesse lembranças não-ocorridas, adotasse para si histórias que nunca chegaram a ser contadas, que é o que acontece quando algo é finalizado cedo. Só assim, detalhando a própria vida, é que poderiam concluir com certeza estarem ou não se enganando. A criação da história por trás da história na intenção de oferecê-la um aspecto mais palatável.


(...)

 


quinta-feira, 1 de abril de 2021

Quarentena I

P/ L.

Não sabiam. Quando despencaram do alto daquele lugar antigo em que se encontravam, seguro o lugar apesar de alto, não faziam a mínima ideia do que viria a seguir. Se alguém pudesse, ou tivesse pensado em utilizar uma metáfora, diria que aquilo era como um salto no escuro. Como palhaços de circo que pulam daquele despenhadeiro em uma cama-elástica estirada lá na parte mais de baixo do mundo, receosos, uns poucos minutos antes da queda completa, de morrer abruptamente e não poder contar o fim da história.

Não foi o que aconteceu. A situação é que, embora não soubessem, sobreviveram. E caíram de pé. Feito gatos treinados, como se tivessem já tantas e tantas vezes articulado uma desgraça, um possível erro, uma tragédia, um problema, de forma que não existisse mais espaço para acontecer qualquer coisa desse tom, que a coisa acabou, de fato, não ocorrendo. 

Falaram muito no começo. Contaram do livro que haviam lido no dia anterior e do filme que veriam no dia depois de amanhã e da atriz que havia decidido se esconder numa chácara no interior do Pará e das vontades de sair de casa para que o mundo pudesse ser enxergado de uma forma mais tranquila, e não só pela janela do quarto. Havia o problema da peste, claro, parecida com a de Camus; as pessoas morrendo a cântaros todos os dias, a ausência completa de um líder apto ao comando da sequência de atos vazios de efetividade e cheios até a tampa de sangue humano. Mas naquele lugar-comum de conversa atravessada de história antiga e futura, a impressão que ficava era que a realidade era outra; uma diversa. E não a realidade que chegaria só depois de descoberta a cura, onde poderiam apontar – fisicamente – para determinado corpo ou objeto e tocar sem qualquer outro receio.

Pensavam sempre no quão estranho foi despencar enquanto o mundo também despencava. E não sofrer qualquer tipo de prejuízo – uma queda para algo bom, diferente das corriqueiras notícias transmitidas na mídia sensacionalista, nos jornais municipais, nos grupos das redes sociais. Questionavam internos se não era egoísmo falar de alegria em momentos obscuros e se seriam depois cobrados pelo distanciamento quase completo das questões carnais. Como quem atribui à própria vida uma formalidade capaz de criar outra vida. Não sabiam que aquele escape era a única possibilidade de não entrarem também no turbilhão de caos.

Ele não tinha conhecimento da estratégia usada pelo outro para se esconder durante todo aquele tempo em algum canto desconhecido da cidade. Se não saía de casa antes mesmo de ser proibido sair de casa. Coisas assim, capazes, naquele momento, de explicar uma ausência prévia. E conversaram. Para chegar à conclusão de que não importavam muito esses buracos, esse não-ocorrido, esse quase-lá, essa falta, esse vão, esse escavado, essa fossa anterior, esse sumiço, esse desconhecimento antecedente.

Conheciam a página da história em quadrinho do ensino médio que fazia uma referência bem sucinta ao poeta Rumi. E que costumava dizer assim, caso estivessem se lembrando corretamente: é pela ferida que entra a luz.