P/ L.
Não sabiam. Quando despencaram do alto daquele lugar antigo em que se encontravam, seguro o lugar apesar de alto, não faziam a mínima ideia do que viria a seguir. Se alguém pudesse, ou tivesse pensado em utilizar uma metáfora, diria que aquilo era como um salto no escuro. Como palhaços de circo que pulam daquele despenhadeiro em uma cama-elástica estirada lá na parte mais de baixo do mundo, receosos, uns poucos minutos antes da queda completa, de morrer abruptamente e não poder contar o fim da história.
Não
foi o que aconteceu. A situação é que, embora não soubessem, sobreviveram. E
caíram de pé. Feito gatos treinados, como se tivessem já tantas e tantas vezes
articulado uma desgraça, um possível erro, uma tragédia, um problema, de forma
que não existisse mais espaço para acontecer qualquer coisa desse tom, que a coisa acabou, de fato, não ocorrendo.
Falaram
muito no começo. Contaram do livro que haviam lido no dia anterior e do filme
que veriam no dia depois de amanhã e da atriz que havia decidido se esconder numa
chácara no interior do Pará e das vontades de sair de casa para que o mundo
pudesse ser enxergado de uma forma mais tranquila, e não só pela janela do quarto.
Havia o problema da peste, claro, parecida com a de Camus; as pessoas morrendo
a cântaros todos os dias, a ausência completa de um líder apto ao comando da
sequência de atos vazios de efetividade e cheios até a tampa de sangue humano.
Mas naquele lugar-comum de conversa atravessada de história antiga e futura, a
impressão que ficava era que a realidade era outra; uma diversa. E não a
realidade que chegaria só depois de descoberta a cura, onde poderiam apontar –
fisicamente – para determinado corpo ou objeto e tocar sem qualquer outro
receio.
Pensavam
sempre no quão estranho foi despencar enquanto o mundo também despencava. E não
sofrer qualquer tipo de prejuízo – uma queda para algo bom, diferente das
corriqueiras notícias transmitidas na mídia sensacionalista, nos jornais
municipais, nos grupos das redes sociais. Questionavam internos se não era
egoísmo falar de alegria em momentos obscuros e se seriam depois cobrados pelo
distanciamento quase completo das questões carnais. Como quem atribui à própria
vida uma formalidade capaz de criar outra vida. Não sabiam que aquele escape
era a única possibilidade de não entrarem também no turbilhão de caos.
Ele
não tinha conhecimento da estratégia usada pelo outro para se esconder durante
todo aquele tempo em algum canto desconhecido da cidade. Se não saía de casa
antes mesmo de ser proibido sair de casa. Coisas assim, capazes, naquele momento, de
explicar uma ausência prévia. E conversaram. Para chegar à conclusão de que não
importavam muito esses buracos, esse não-ocorrido, esse quase-lá, essa falta,
esse vão, esse escavado, essa fossa anterior, esse sumiço, esse desconhecimento
antecedente.
Conheciam
a página da história em quadrinho do ensino médio que fazia uma referência bem
sucinta ao poeta Rumi. E que costumava dizer assim, caso estivessem se lembrando corretamente: é pela ferida que entra a luz.